segunda-feira, 14 de janeiro de 2013




     Ainda era madrugada, o sono insistia em não chegar pra tornar aquele pesadelo real em sonho temporário. Olhava pela janela, e via o tom avermelhado das nuvens que corriam com o vento naquela noite nublada e se entristecia ainda mais pensando: "Nem sol vai ter amanhã pra aquecer o que sobrou da minha alma?".
    Veja só que ironia, logo ele que fazia da chuva seus momentos mais felizes, hoje padecia, acinzentando o coração junto com o céu. A mente se adormecia com o turbilhão de sentimentos, desde os mais lindos - aqueles de beira-mar, sol poente, férias na montanha, tudo o que traziam paz sabe? - até os mais vazios e desesperançosos, como os conflitos que travava agora com seu coração. Ele sentia que naquele momento a paz não estava alí e parecia que ela havia viajado para o outro lado do mundo, sem dar noticias, nem ao menos um cartão postal pra mostrar quão lindo era o lado de lá, sem dizer sequer se um dia voltaria.
    Das poucas coisas que lhe conservava ainda alí, a música era a que mais lhe prendia, através dela ele viajava para um mundo imaginário, onde desenhar sua própria história e fabricar o seu final feliz era o combustível para ele passar por mais uma noite em claro. Ainda assim, tentava continuar com a última gota de esperança, implorando para que alguém o visse naquela areia movediça e o resgatasse pra vida novamente. As canetas, os cadernos e os teclados o mantinham vivo, e estranhamente ele percebia que por algum motivo conseguia transmitir os seus sentimentos para as letras que escrevia, e que aquilo fazia ao menos estagnar a dor que sentia. E ficava escrevendo a noite toda, mesmo que coisas vazias, esperando que em algum parágrafo, estrofe ou verso surgisse algo que lhe ajudasse a se sustentar, como uma bengala para o coxo.
    E de música em música, de textos, crônicas, versos e rimas ele seguiu, ferido de guerra, ferido de amor, ferido de alma, ele agora entendia mais como as coisas funcionavam, se reinventava nos seus próprios rabiscos, tentando a cada dia ser ele mesmo, mas buscando de alguma forma não ser sempre o mesmo, pra não ter tempo de baixar a cabeça, pra não se entregar a dor que há pouco tempo lhe tinha deixado em coma profundo, pra não viver sempre as mesmas coisas, pra não viver de novo a mesma vida. O que lhe faltava era perceber que o que ele deveria sentir na verdade, não era medo de se entristecer novamente, mas sim ter a coragem de correr atrás da sua felicidade.
    Foi então que numa roda de amigos, enquanto procurava meio que disfarçadamente encontrar algumas palavras ou algum conforto que o fizesse progredir, que ele teve o empurrão que precisava. Era final de conversa, quase as despedidas e então, num certo momento daquele papo tão descontraído, alguém disse: "O que você acha de parar de correr atrás e começar a correr na frente?". Ele parou por alguns instantes e como num despertar caiu em si: "Como eu não pensei nisso antes?"
    E no dia seguinte, com um lindo amanhecer, os raios ruivos e jovias do sol se apresentavam naquela manhã, ele decidiu renascer assim como o sol renascia a cada dia, incansável, imponente e triunfante, mesmo que em alguns dias as nuvens o impedisse de tocar o solo, ele continuava lá, paciente, aguardando o momento certo de beijar a face da Terra e abençoar mais um dia. Era assim que ele queria se sentir e foi ainda mais além, dia após dia, curando uma ferida de cada vez, absorvendo tudo o que lhe fazia crescer, que ele sobreviveu; olhava para trás e via pessoas desejando ser ao menos a sua sombra, pessoas que há pouco ele invejava, pessoas que ele gostaria de ser antes mesmo de conhecê-las, antes mesmo de conhecer a ele mesmo.
    Entendeu, que a vida sempre será sem sabor se não for adicionado a cada dia o tempero necessário e que se perceba que, alguns dias serão doces e outros amargos; assim como as refeições que nos alimentam o corpo, o que a gente faz de cada dia alimenta a nossa alma, e que a alma cresce tanto quanto o corpo, e dependendo da quantidade de alimento ela pode se tornar imortal.
    A imortalidade, não é viver para sempre físicamente, é fazer com que de alguma forma você jamais seja esquecido, independente de calendários e gerações.
    Foi assim, que o mundo o acolheu e transformou toda a sua angústia e dores do passado em lembranças inspiradoras, até porquê esquecer é impossível, mas entender, aceitar e reciclar tudo o que se vive depende de cada um, depende principalmente de pra onde você vai mirar o seu próximo passo.